Existe um Flávio Bolsonaro circulando pelas redes que pretende acabar com direitos trabalhistas, elevar drasticamente a idade de aposentadoria, privatizar o SUS, extinguir benefícios sociais e adotar uma série de medidas que não aparecem em suas declarações ou no programa registrado para a eleição.

Não estamos falando simplesmente de críticas ao candidato. Algumas publicações apresentam afirmações factuais verificáveis que não aconteceram, enquanto outras pegam discussões reais e as ampliam até que o resultado seja praticamente outro personagem.

O fenômeno fica especialmente visível no X, onde uma frase curta, um corte de vídeo ou um card consegue circular muito mais rápido do que a explicação necessária para verificá-lo.

Uma mentira isolada pode ser desmentida. O problema começa quando várias mentiras diferentes passam a contar a mesma história.

Da fala real à narrativa fabricada

Nem toda desinformação começa com algo completamente inventado.

Às vezes existe uma discussão verdadeira sobre Previdência, legislação trabalhista, saúde ou programas sociais. O conteúdo viral pega esse ponto inicial, remove contexto, acrescenta uma conclusão que não foi apresentada e transforma tudo em uma frase simples.

O processo pode ser quase mecânico:

  • existe uma posição ou discussão real;
  • aparece um corte sem o restante da fala;
  • alguém transforma aquilo em uma frase mais extrema;
  • a frase vira card;
  • outros perfis repetem a informação;
  • eventualmente surge vídeo, áudio ou imagem tentando dar aparência de prova;
  • o conteúdo seguinte já não precisa convencer do zero porque encontra um público familiarizado com a narrativa.

Quanto mais vezes isso acontece, menos importante fica a origem de cada publicação.

A narrativa começa a sustentar a próxima narrativa.

Ilustração editorial mostrando como uma afirmação falsa se espalha e é repetida nas redes
Ilustração editorial — como uma narrativa se fortalece pela repetição.

Quando o candidato aparece dizendo algo que nunca disse

Um dos exemplos mais fortes aconteceu poucos dias antes do primeiro turno.

Circulou um vídeo no qual Flávio Bolsonaro aparentemente dizia que o trabalhador teria de escolher entre “menos direitos e emprego” ou “todos os direitos e desemprego”.

A imagem era verdadeira.

Flávio realmente estava naquele vídeo.

A voz parecia ser dele.

Mas a declaração não existia na gravação original.

O Aos Fatos localizou o material original e verificou que Flávio falava sobre uma viagem a Israel e uma visita ao memorial do Holocausto. O áudio relacionado aos direitos trabalhistas havia sido inserido posteriormente com inteligência artificial.

Análises feitas pelo veículo também encontraram indícios de clonagem de voz e outras características de manipulação.

Até a tarde de 4 de outubro, publicações com o vídeo falso somavam pelo menos 140 mil interações no X e outras 83 mil interações nas plataformas da Meta, segundo o levantamento do Aos Fatos.

Isso muda bastante a natureza da desinformação.

Antes, alguém precisava convencer você de que uma pessoa tinha dito determinada frase.

Agora é possível simplesmente mostrar a pessoa aparentemente dizendo.

Ilustração editorial sobre manipulação de voz e vídeo por inteligência artificial
Ilustração editorial — imagem e voz também podem ser manipuladas.

A aposentadoria aos 75 anos

Outro conteúdo afirmava que Flávio havia anunciado no Rio Grande do Sul uma reforma da Previdência em que homens se aposentariam aos 75 anos e mulheres aos 72, além de cortes em direitos trabalhistas.

A AFP verificou as gravações disponíveis dos discursos realizados durante a passagem dele pelo estado e não encontrou essas declarações.

Naquele momento, o plano de governo ainda nem havia sido divulgado.

As publicações verificadas pela agência acumulavam mais de 15 mil interações e circulavam por X, Instagram, Facebook, YouTube, TikTok, Kwai e outras plataformas.

Esse caso mostra outro comportamento interessante.

Não é necessário fabricar um vídeo extremamente sofisticado.

Uma frase específica, acompanhada de uma fotografia verdadeira e uma informação sobre um evento que realmente aconteceu, já pode criar aparência suficiente de autenticidade.

O SUS que seria privatizado

Também circulou uma declaração atribuída diretamente a Flávio afirmando que o SUS seria privatizado caso ele assumisse a Presidência e que brasileiros passariam a pagar por atendimentos e medicamentos.

O Aos Fatos pesquisou entrevistas e publicações do candidato e não encontrou registro da declaração.

A origem identificada pela checagem era uma distorção de discussões sobre propostas para a saúde. O conteúdo transformava mudanças de gestão e participação complementar da rede privada em uma suposta proposta de privatização integral do SUS.

Após o primeiro turno, a alegação voltou a circular.

Segundo o levantamento publicado pelo Aos Fatos, as postagens chegaram a mais de 800 mil visualizações no X.

Enquanto isso, o programa registrado no TSE apresenta propostas como digitalização do sistema, redução das filas e utilização complementar da rede privada.

É perfeitamente legítimo discutir se essas propostas são boas ou ruins.

É outra coisa atribuir ao candidato uma frase que ele não pronunciou.

13º, CLT, BPC e outras propostas que apareceram nas redes

Na reta final do primeiro turno e depois dele, novas publicações passaram a afirmar que a campanha pretendia acabar com o 13º salário, retirar direitos da CLT, elevar novamente a idade de aposentadoria e extinguir benefícios como o BPC.

O UOL Confere verificou uma dessas peças em 7 de outubro e não encontrou as medidas atribuídas à campanha no programa apresentado ao TSE.

A publicação analisada pelo veículo ultrapassava 150 mil visualizações.

Existe aqui uma nuance importante.

Integrantes da campanha realmente discutiram a possibilidade de revisitar reformas previdenciária e trabalhista.

Isso é um fato político que pode ser questionado.

Mas:

“Pretende discutir uma nova reforma trabalhista” não significa automaticamente “pretende acabar com o 13º salário”.

O primeiro é uma posição que pode ter inúmeras consequências e merece debate.

O segundo é uma proposta específica. Se alguém afirma que ela existe, precisa conseguir demonstrar onde foi apresentada.

O Bolsa Família de R$ 1.200 que nunca foi prometido

Nem todas as histórias apresentam Flávio como alguém que pretende retirar benefícios.

Em maio, circularam publicações dizendo que ele acabaria com o Bolsa Família de R$ 600 e criaria novamente o Auxílio Brasil pagando R$ 1.200.

O UOL Confere não encontrou registro dessa promessa.

É uma característica curiosa desse tipo de desinformação: as histórias não precisam ser coerentes umas com as outras.

Em determinada postagem, o personagem é alguém que acabará com programas sociais.

Em outra, aparece prometendo dobrar um benefício.

Cada conteúdo tenta produzir uma reação diferente.

Quando várias mentiras viram uma pessoa

É aqui que o assunto fica mais interessante do que simplesmente verificar posts individualmente.

Imagine alguém passando semanas vendo conteúdos diferentes:

“Vai acabar com o 13º.”

“Vai aumentar a aposentadoria para 75 anos.”

“Vai privatizar o SUS.”

“Vai acabar com benefícios.”

Depois de algum tempo, essa pessoa não precisa lembrar de onde cada informação veio.

Ela já possui uma ideia geral de quem aquele candidato supostamente é.

A próxima postagem encontra terreno pronto.

Mesmo que seja ainda mais absurda que as anteriores, ela pode parecer coerente com o personagem previamente construído.

É assim que surge uma espécie de Flávio Bolsonaro paralelo.

Não aquele definido pelo que está no programa, pelas entrevistas ou pelas ações documentadas, mas uma versão construída coletivamente pelo feed.

Ilustração editorial representando um personagem político construído por publicações repetidas no feed
Ilustração editorial — a repetição pode construir uma versão paralela de uma pessoa.

E quando aparecem “ditador”, “fascista” e comparações extremas?

Aqui precisamos separar categorias.

Dizer que determinado político é autoritário, fascista ou compará-lo com alguma figura histórica é uma interpretação política.

Podemos discutir se essa comparação tem sustentação histórica, quais atos são usados como argumento e se a analogia faz sentido.

Mas ela não funciona como uma checagem factual simples.

Já uma publicação dizendo:

“Flávio anunciou que mulheres perderão determinado direito.”

é diferente.

Existe uma afirmação objetiva.

Podemos procurar a proposta, a entrevista, o discurso ou o documento.

Ou ela existe, ou não existe.

Misturar opinião política com fatos verificáveis dificulta muito a discussão.

Uma pessoa pode acreditar sinceramente que determinado candidato representa risco democrático e ainda assim compartilhar uma informação falsa sobre ele.

Uma coisa não transforma automaticamente a outra em verdade.

A IA reduziu brutalmente o custo de fabricar uma “prova”

O caso do vídeo sobre direitos trabalhistas mostra uma transformação particularmente importante para esta eleição.

Não precisamos mais imaginar deepfakes como aquelas demonstrações tecnológicas impressionantes que levavam semanas para serem produzidas.

Hoje alguém pode pegar uma gravação verdadeira, gerar uma voz parecida com a de uma pessoa e publicar o resultado enquanto o assunto ainda está acontecendo.

Quando essa manipulação chega ao feed, ela traz elementos que tradicionalmente usamos para decidir se algo é verdadeiro:

rosto, voz, movimento e vídeo.

E isso cria um problema de memória.

Uma pessoa vê o deepfake hoje.

A postagem é removida ou desmentida amanhã.

Uma semana depois, ela encontra apenas uma frase dizendo que Flávio teria defendido aquilo.

Talvez não lembre de onde veio a informação.

Mas lembra de uma coisa:

“Eu vi um vídeo dele falando isso.”

A correção precisa combater não apenas uma informação, mas uma memória construída artificialmente.

Criticar propostas reais é diferente

Nada disso transforma críticas a Flávio Bolsonaro em desinformação.

Existem propostas reais, declarações reais, alianças reais e decisões políticas reais que podem ser analisadas duramente.

O programa registrado no TSE está disponível publicamente justamente para permitir esse tipo de comparação.

Discordar de uma proposta não é fake news.

Questionar suas possíveis consequências também não.

Publicar uma investigação sobre o candidato não é fake news simplesmente porque a campanha discorda dela.

O problema é muito mais específico:

atribuir como fato algo que não ocorreu.

Essa distinção importa inclusive para quem é oposição ao candidato.

Quando críticas legítimas passam a dividir espaço com alegações facilmente desmentidas, as próprias críticas reais podem perder credibilidade.

O problema também não pertence a um único lado

Seria um erro transformar esta discussão em uma tese de que apenas adversários de Flávio Bolsonaro produzem desinformação.

Poucos dias antes da eleição, o UOL Confere publicou uma apuração dizendo ter encontrado conteúdos falsos contra Lula distribuídos em grupos ligados à campanha de Flávio no WhatsApp.

Na mesma reportagem, o veículo registrou também uma informação falsa compartilhada por uma plataforma do PT sobre uma ação envolvendo o PL e o reajuste do Bolsa Família.

A tecnologia não escolhe ideologia.

Deepfake, corte fora de contexto e card falso funcionam em qualquer direção.

É exatamente por isso que uma regra simples é útil:

Se a mentira é inaceitável quando beneficia o político de quem você discorda, ela também deveria ser inaceitável quando prejudica esse político.

Como verificar antes de compartilhar

A maioria dessas histórias pode ser investigada com alguns passos básicos.

  1. Procure a origem da gravação e assista a um trecho maior.
  2. Pesquise a frase exata atribuída à pessoa.
  3. Veja se veículos independentes registraram aquela declaração.
  4. Quando falarem de uma proposta presidencial, procure o programa registrado no TSE.
  5. Diferencie “alguém próximo ao candidato disse” de “o candidato propôs”.
  6. Desconfie de conteúdos em que a informação perfeita para confirmar sua opinião aparece sem fonte primária.
  7. Em vídeos, considere manipulação de voz e imagem quando o material só existir em reposts.
  8. Se vários perfis repetirem a mesma informação, isso não transforma repetição em evidência.

Não é necessário confiar cegamente em uma campanha, no governo, na oposição ou em um único veículo.

O ideal é procurar fontes independentes entre si e, sempre que possível, a fonte primária.

A eleição que acontece dentro do algoritmo

Talvez o mais interessante desse fenômeno nem seja Flávio Bolsonaro.

Ele é apenas um caso atual de um problema que tende a crescer.

Candidatos passam a disputar uma eleição contra seus adversários reais e, simultaneamente, contra versões artificiais deles mesmos.

Texto barato já fazia isso.

Imagens facilitaram.

Vídeos curtos aceleraram.

IA generativa adicionou rosto e voz.

A consequência é uma internet onde milhões de pessoas podem acabar discutindo propostas que nunca foram apresentadas e reagindo a declarações que nunca aconteceram.

Democracia pressupõe que possamos discordar sobre o que deveria acontecer. Fica muito mais difícil quando nem conseguimos concordar sobre o que realmente aconteceu.

Corrigir uma mentira sobre Flávio Bolsonaro não significa apoiar Flávio Bolsonaro.

Corrigir uma mentira sobre Lula não significa apoiar Lula.

Esse deveria ser justamente o ponto.

Políticos possuem material real suficiente para serem analisados, criticados e cobrados.

Não precisamos inventar outro.

Fontes e checagens