Durante boa parte do século XX, pessoas consideradas inconvenientes, pobres, diferentes ou simplesmente difíceis de encaixar nos padrões sociais podiam desaparecer atrás dos muros de uma instituição psiquiátrica.
Em Barbacena, Minas Gerais, essa lógica atingiu uma escala que décadas depois se tornaria símbolo dos abusos cometidos pela psiquiatria asilar brasileira.
A instituição que ficaria conhecida como Hospital Colônia de Barbacena começou a funcionar em 1903. Ao longo das décadas seguintes, deixou de ser apenas um lugar destinado a pessoas com transtornos mentais e tornou-se também destino para gente que a sociedade preferia manter longe de vista.
Segundo estimativa citada pelo Ministério Público de Minas Gerais, cerca de 70% das pessoas internadas no Colônia não apresentavam sofrimento mental. O mesmo órgão registra mais de 60 mil mortes associadas à instituição durante seu período mais sombrio. MPMG
O horror de Barbacena não nasceu de uma única decisão. Ele foi possível porque, durante décadas, excluir pessoas passou a ser tratado como uma forma aceitável de cuidado.
O trem para Barbacena
Barbacena tornou-se um dos principais destinos da internação psiquiátrica em Minas Gerais.
Pessoas de diferentes regiões chegavam à cidade pela ferrovia. O transporte ficou marcado no imaginário mineiro pela expressão “trem de doido”, associada aos vagões que levavam pessoas para internação nos hospitais psiquiátricos da cidade. Documentos e estudos sobre a Reforma Psiquiátrica registram que os trens chegavam à estação com pacientes que seriam encaminhados principalmente ao Hospital Colônia e a outras instituições locais. CNJ
Para muita gente, aquela viagem era de ida.
O problema não era apenas o transporte. Era quem poderia ser colocado nele.
Levantamentos históricos e relatos recuperados posteriormente mostram que o Colônia recebeu pessoas com transtornos mentais, mas também indivíduos enviados por razões que hoje dificilmente seriam aceitas como justificativa para uma internação psiquiátrica.
A lista documentada ao longo dos anos inclui pessoas em situação de pobreza, alcoolistas, epilépticos, homossexuais, mulheres rejeitadas por suas famílias, pessoas sem documentos e outros indivíduos considerados socialmente inconvenientes. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais registra que a maioria dos pacientes confinados à força sequer possuía diagnóstico de doença mental. Assembleia de Minas Gerais
A instituição psiquiátrica acabava exercendo uma função muito maior do que tratar doenças.
Ela também retirava pessoas da sociedade.
Quando tratamento vira abandono
Entrar no Colônia não significava necessariamente receber tratamento adequado.
O Ministério Público de Minas Gerais resume algumas das causas das milhares de mortes ocorridas ali: frio, fome, diarreia, tortura e eletrochoques, em um ambiente marcado por superlotação e graves violações de direitos humanos. MPMG
Há relatos de internos sem roupas adequadas, dormindo em condições precárias e enfrentando falta de alimentação, higiene e assistência.
A Câmara dos Deputados, ao tratar da história da luta antimanicomial, registrou relatos de pacientes que dormiam sobre capim, bebiam água imprópria e eram submetidos a agressões e eletrochoques. Portal da Câmara dos Deputados
É importante entender uma coisa: essas mortes não aconteceram em um único episódio.
Não houve um dia específico em que milhares de pessoas foram executadas.
Foi um processo prolongado.
Pessoas eram internadas, perdiam contato com suas famílias, permaneciam anos dentro da instituição e morriam em condições que deveriam ser incompatíveis com um hospital.
Essa duração talvez seja uma das características mais perturbadoras da história.
Não foi um segredo preservado durante alguns dias.
A instituição funcionou por décadas.
Mais de 60 mil mortos
A estimativa que se tornou símbolo do Colônia aponta mais de 60 mil mortes.
O número foi amplamente documentado e posteriormente popularizado pelo trabalho da jornalista Daniela Arbex, autora do livro-reportagem Holocausto Brasileiro. Fontes institucionais como o Ministério Público de Minas Gerais, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais e a Universidade Federal de Minas Gerais também adotam a dimensão de mais de 60 mil vítimas ao tratar do episódio. Assembleia de Minas Gerais
Por trás desse número, porém, havia pessoas cuja identidade muitas vezes desaparecia junto com sua vida fora do hospital.
Internações longas rompiam vínculos familiares. Pessoas chegavam sem documentos ou deixavam de manter contato com parentes. Algumas famílias passaram décadas sem saber exatamente o que havia acontecido com quem foi levado para Barbacena.
Muitas morreram sem recuperar sequer o próprio nome.

Quando a história é reduzida apenas ao número de mortos, existe o risco de repetir parte da mesma violência que tornou aquelas pessoas invisíveis em vida.
Por isso, trabalhos posteriores passaram a tentar reconstruir histórias individuais, encontrar sobreviventes e devolver identidade às vítimas.
Nem os mortos escaparam
A história continuava depois da morte.
Um dos capítulos mais graves envolve a destinação dos cadáveres de pacientes.
Em declaração pública de 2026, a Universidade Federal de Minas Gerais reconheceu que corpos provenientes do Hospital Colônia foram utilizados em atividades de ensino de anatomia.
A declaração da UFMG cita, com base no levantamento publicado no livro de Daniela Arbex, 1.853 corpos de pacientes comercializados entre 1969 e 1981 para 17 instituições de ensino médico. Outros mortos eram enterrados como indigentes. Declaração da UFMG.
Há uma diferença entre números publicados em fontes institucionais: a declaração da UFMG registra 1.853 corpos; já uma notícia do MPMG de maio de 2025 atribui à própria jornalista a informação de 1.857 corpos vendidos. Como os registros foram publicados em contextos diferentes, mantenho cada número atribuído à sua fonte, sem tratá-los como uma contagem única reconciliada. MPMG — evento sobre a luta antimanicomial.
Não estamos falando de um programa moderno de doação voluntária de corpos.
Estamos falando de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade cujos cadáveres foram destinados a instituições de ensino dentro de um contexto que a própria UFMG hoje reconhece como uma grave violação de dignidade.
Em março de 2026, a universidade formalizou um pedido público de desculpas à sociedade brasileira por ter adquirido cadáveres provenientes de Barbacena e anunciou medidas de memória, restauração de registros históricos e inclusão do episódio na formação de estudantes de medicina. Faculdade de Medicina da UFMG
É um reconhecimento que chegou muitas décadas depois.
Mas ajuda a mostrar que Barbacena não era um problema isolado dentro dos muros do hospital.
Existia uma rede institucional ao redor daquele sistema.
O Brasil já tinha sido avisado
Uma parte especialmente desconfortável dessa história é perceber que as condições do Colônia foram denunciadas muito antes de o episódio ganhar a dimensão pública que possui hoje.
Em 1961, a revista O Cruzeiro publicou a reportagem Hospício de Barbacena: Sucursal do Inferno, acompanhada de fotografias produzidas dentro da instituição.
As imagens mostravam a precariedade extrema em que viviam os internos e ajudaram a expor nacionalmente o que acontecia em Barbacena. Pesquisas acadêmicas posteriores apontam essa reportagem como uma das primeiras grandes denúncias jornalísticas sobre o local. Repositório UFPE
O país viu.
Houve indignação.
E ainda assim o sistema continuou.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da história do Colônia.
O problema não era simplesmente desconhecido.
Existiam denúncias, fotografias, profissionais questionando o modelo e evidências suficientes para demonstrar que algo estava profundamente errado.
Mesmo assim, mudanças estruturais demoraram anos.
1979
O ano de 1979 tornou-se decisivo para a história da Reforma Psiquiátrica brasileira.
O psiquiatra italiano Franco Basaglia, uma das principais referências internacionais do movimento de desinstitucionalização, visitou hospitais psiquiátricos em Minas Gerais e conheceu o Colônia.
Sua reação à situação encontrada ganhou repercussão nacional e ajudou a ampliar as denúncias sobre o sistema manicomial brasileiro. Registros da Fiocruz apontam que Basaglia comparou o que encontrou em Barbacena a um campo de concentração. Laps
No mesmo período, o cineasta Helvécio Ratton realizou Em Nome da Razão, documentário filmado dentro do Hospital Colônia.
O filme registrou pacientes, pavilhões e condições de internação e se tornou uma das principais denúncias audiovisuais do modelo psiquiátrico da época. A Fiocruz registra a obra como uma das grandes exposições públicas da realidade dos manicômios brasileiros. Fiotec
Reportagens, fotografias, profissionais da saúde, sobreviventes e documentários começaram a romper uma barreira que durante décadas protegeu aquele sistema:
o silêncio.
A história deixou de caber atrás dos muros.

Por que chamar de “Holocausto Brasileiro”?
Décadas depois, a jornalista Daniela Arbex aprofundou essa história em uma série de reportagens e posteriormente no livro Holocausto Brasileiro — Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil.
A obra reuniu documentos, fotografias, relatos de sobreviventes e depoimentos de pessoas que trabalharam dentro da instituição.
O título ajudou a popularizar a expressão pela qual a tragédia de Barbacena é conhecida atualmente. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais registrou o lançamento do livro em 2013 e a dimensão das violações documentadas pela investigação. Assembleia de Minas Gerais
É importante, porém, manter uma distinção histórica.
O chamado “Holocausto Brasileiro” não é o Holocausto perpetrado pela Alemanha nazista, que foi um projeto estatal de perseguição e extermínio sistemático de judeus e de outros grupos durante a Segunda Guerra Mundial.
O termo aplicado a Barbacena tornou-se uma forma de enfatizar a escala da desumanização e das mortes ocorridas no sistema manicomial brasileiro.
A comparação com campos de concentração também antecede o livro de Arbex: Franco Basaglia já havia utilizado essa imagem ao visitar Barbacena em 1979. Laps
Preservar essa diferença não diminui a gravidade do que aconteceu no Brasil.
Ajuda a compreender cada episódio dentro de sua própria história.
O documentário que devolveu voz às vítimas
A investigação de Daniela Arbex também deu origem ao documentário Holocausto Brasileiro, lançado em 2016 e dirigido por Arbex e Armando Mendz.
Em vez de transformar a história apenas em uma sucessão de imagens de horror, o documentário coloca sobreviventes e testemunhas no centro da narrativa.
Esse detalhe importa.
Durante décadas, as pessoas internadas no Colônia tiveram outras pessoas decidindo por elas quem eram, por que estavam ali e o que aconteceria com suas vidas.
Registrar seus relatos significa inverter parcialmente essa lógica.
Para informações sobre direção, ficha técnica e o documentário, há uma página dedicada a Holocausto Brasileiro no TMDb.
Do manicômio para outra ideia de cuidado
As denúncias sobre Barbacena fizeram parte de um movimento brasileiro muito maior de questionamento do modelo asilar.
Profissionais, familiares, usuários dos serviços de saúde mental e movimentos sociais passaram a defender um sistema no qual internações de longa permanência deixassem de ser a resposta padrão para pessoas em sofrimento mental.
Esse processo levou décadas.
Em 2001, a Lei nº 10.216 estabeleceu direitos para pessoas com transtornos mentais e redirecionou o modelo brasileiro de assistência em saúde mental.
A legislação determina, entre outras coisas, que o tratamento deve ocorrer com humanidade, visando à reinserção da pessoa na família, no trabalho e na comunidade, e que a internação deve ser utilizada quando recursos extra-hospitalares forem insuficientes. Instituições com características puramente asilares são expressamente vedadas pela lei. Planalto
Isso não significa que todos os problemas da saúde mental brasileira desapareceram.
Também não significa que qualquer internação psiquiátrica seja automaticamente abusiva.
A mudança fundamental é outra:
a pessoa em sofrimento mental continua sendo uma pessoa com direitos.
Parece óbvio hoje.
Barbacena mostra por que precisou ser escrito em lei.
Memória não é somente olhar para trás
Mais de um século depois do início da instituição, a história do Colônia continua produzindo consequências.
Documentos ainda são estudados.
Instituições continuam revisando sua participação.
Famílias ainda tentam reconstruir as histórias de parentes.
Sobreviventes tiveram de recuperar vidas depois de anos de institucionalização.
E, em 2026, uma das universidades envolvidas na utilização dos cadáveres ainda estava formalizando um pedido público de desculpas pelo que aconteceu décadas antes. Faculdade de Medicina da UFMG
É por isso que preservar essa história importa.
Não para transformar sofrimento em espetáculo.
Nem para utilizar as vítimas apenas como um número assustador.
Mas para lembrar o que acontece quando uma sociedade aceita que determinado grupo perdeu o direito de ser ouvido.
O primeiro passo para transformar um hospital em depósito de pessoas é deixar de enxergar quem está lá dentro como pessoa.
Barbacena não começou com 60 mil mortos.
Começou com decisões aparentemente menores: quem deveria ser afastado, quem poderia ser internado, quem tinha voz, quem seria acreditado e qual nível de sofrimento a sociedade estava disposta a ignorar.
Quando essas decisões se acumulam por décadas, o resultado pode ser monstruoso.
Lembrar não desfaz o que aconteceu, mas ajuda a impedir que o abandono volte a ser chamado de tratamento.

Fontes
- Ministério Público de Minas Gerais — Holocausto Brasileiro, memória e luta antimanicomial
- Assembleia Legislativa de Minas Gerais — jornalista relata em livro o horror do hospício de Barbacena
- UFMG — pedido de desculpas pelo uso de cadáveres provenientes de Barbacena
- Fiocruz — linha do tempo da visita de Franco Basaglia ao Brasil
- Fiocruz — III Congresso Mineiro de Psiquiatria e Em Nome da Razão
- Presidência da República — Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001
- TMDb — Holocausto Brasileiro (2016)




