Em setembro de 1987, dois homens entraram nas ruínas de uma antiga clínica de radioterapia no centro de Goiânia procurando algo que pudesse ser vendido como sucata.
Entre os equipamentos abandonados estava uma máquina utilizada anos antes no tratamento de câncer.
Dentro dela havia uma fonte contendo Césio-137.
Durante os dias seguintes, aquela peça seria desmontada, vendida, aberta e distribuída entre pessoas que não tinham como saber o que estavam segurando.
O material emitia um brilho azulado no escuro.
Parecia bonito.
E foi justamente essa aparência incomum que ajudou a espalhá-lo.
O acidente de Goiânia não começou com uma explosão. Começou com um equipamento abandonado, curiosidade e uma fonte radioativa que nunca deveria ter ficado acessível.
Primeiro
É comum encontrar referências ao episódio como “acidente nuclear de Goiânia”, mas tecnicamente ele é classificado como um acidente radiológico.
Não havia uma usina nuclear, um reator fora de controle ou uma explosão atômica.
A fonte do problema era um equipamento médico.
O Césio-137 possui aplicações legítimas na medicina e já foi utilizado em aparelhos de radioterapia. O perigo apareceu quando uma fonte altamente radioativa deixou de permanecer isolada e controlada.
A própria Secretaria de Saúde de Goiás diferencia os conceitos: uma emergência radiológica envolve materiais radioativos, enquanto uma emergência nuclear está relacionada, por exemplo, a instalações com reatores.
Essa distinção torna a história ainda mais importante.
Não foi necessária uma usina para produzir uma emergência enorme.
Uma única fonte médica abandonada foi suficiente.

A cápsula esquecida
O equipamento pertencia ao antigo Instituto Goiano de Radioterapia, que havia deixado suas antigas instalações.
A fonte de Césio permaneceu no prédio desativado.
Em 13 de setembro de 1987, Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira conseguiram retirar parte do aparelho das ruínas. O conjunto foi levado em um carrinho de mão para a casa de Roberto, na Rua 57, no centro de Goiânia.
O objetivo não era entrar em contato com material radioativo.
Eles estavam interessados principalmente no metal que poderia ser vendido.
Dias depois, em 18 de setembro, a peça chegou ao ferro-velho de Devair Alves Ferreira.
Foi ali que a história mudou completamente.
Ao desmontar a peça, tornou-se possível observar no interior da fonte um material que apresentava um brilho azul intenso no escuro.
Ninguém ao redor sabia que aquilo era altamente radioativo.
A luz azul
O brilho despertou curiosidade.
Fragmentos do material foram manipulados e levados para outros lugares. Pessoas próximas ao ferro-velho tiveram contato com ele, e partes da fonte chegaram às casas de familiares e conhecidos.
Segundo a Secretaria de Saúde de Goiás, a fonte possuía atividade de aproximadamente 50,9 TBq naquele período e continha cloreto de césio, um composto altamente solúvel.
Isso tornou a situação particularmente ruim.
Depois que a cápsula foi violada, o material podia aderir às mãos, roupas, objetos e superfícies. Partículas também podiam ser ingeridas ou inaladas.
A contaminação deixou de estar concentrada dentro de uma máquina.
Ela passou a viajar junto com as pessoas.
O que parecia ser apenas um objeto estranho encontrado em um ferro-velho havia se transformado em uma fonte móvel de contaminação.
Os primeiros sintomas
As pessoas que haviam manipulado o material começaram a apresentar problemas como náusea, vômito, diarreia e lesões na pele.
Mas havia um problema enorme: ninguém sabia que a origem era radiação.
Algumas vítimas procuraram atendimento médico e inicialmente receberam hipóteses relacionadas a outras doenças.
Enquanto isso, o Césio continuava circulando.
A cadeia só começou a ser interrompida quando Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair, percebeu que as pessoas que estavam adoecendo possuíam algo em comum: haviam tido contato com aquela peça.
Em 28 de setembro, Maria Gabriela levou o material suspeito à Vigilância Sanitária.
No dia seguinte, medições confirmaram níveis extremamente elevados de radiação.
O acidente havia finalmente sido identificado.
Tinham se passado aproximadamente 16 dias desde a retirada da fonte.
Goiânia entra em emergência
A descoberta mudou completamente a dimensão do problema.
Já não era suficiente tratar algumas pessoas.
Era necessário descobrir por onde o Césio tinha passado.
Equipes começaram a reconstruir os caminhos da fonte, identificar pessoas que haviam entrado em contato com o material e medir níveis de radiação em casas, terrenos, objetos e roupas.
A Comissão Nacional de Energia Nuclear acionou sua estrutura de emergência, e diferentes órgãos brasileiros passaram a participar da operação. A Agência Internacional de Energia Atômica também prestou assistência.
Foram identificados sete focos principais de contaminação.
A população precisava ser examinada rapidamente.
112.800 pessoas monitoradas
Uma grande operação de triagem foi montada no Estádio Olímpico de Goiânia.
Segundo os dados históricos mantidos pela Secretaria de Saúde de Goiás, 112.800 pessoas foram monitoradas.
Dessas, 249 apresentaram contaminação interna ou externa significativa.
Em 120 casos, a contaminação estava apenas em roupas e calçados e pôde ser eliminada com procedimentos de descontaminação.
As outras 129 pessoas passaram a receber acompanhamento médico.
Entre os casos mais graves, pacientes foram encaminhados para hospitais em Goiânia e posteriormente para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro.
A dimensão da triagem mostra uma característica cruel de uma emergência radiológica invisível:
ninguém consegue olhar para outra pessoa e saber se ela foi contaminada.
Era necessário medir.

Quatro mortes diretas
O acidente provocou quatro mortes diretamente associadas às altas exposições ocorridas naquele período.
Entre elas estava Leide das Neves Ferreira, de apenas seis anos.
Leide teve contato intenso com o material levado para a casa de sua família e acabou se tornando um dos principais símbolos humanos da tragédia.
Também morreram:
- Maria Gabriela Ferreira.
- Israel Batista dos Santos.
- Admilson Alves de Souza.
As mortes ocorreram aproximadamente quatro a cinco semanas depois das exposições.
Segundo a Secretaria de Saúde de Goiás, 28 pessoas desenvolveram diferentes graus de lesões cutâneas causadas pela radiação, enquanto vários pacientes sofreram consequências relacionadas à Síndrome Aguda da Radiação.
Os números são essenciais para entender a dimensão do episódio.
Mas também escondem uma característica importante.
Cada número representa alguém que entrou em contato com aquele material sem saber que havia qualquer risco.
Descontaminar uma cidade
Depois de identificar os principais focos, começou outra operação enorme.
Casas e terrenos precisavam ser medidos.
Objetos contaminados precisavam ser retirados.
Em alguns casos não era possível simplesmente limpar uma superfície.
Construções tiveram de ser demolidas e partes do solo removidas.
Móveis, roupas, objetos pessoais, materiais de construção e terra passaram a ser tratados como rejeitos radioativos.
Segundo a Secretaria de Saúde de Goiás, a descontaminação produziu aproximadamente 3.500 metros cúbicos de rejeitos.
Em peso, registros da CNEN e do Governo de Goiás apontam para cerca de 6 mil toneladas de material.
A consequência de alguns gramas de Césio dentro de uma fonte médica acabou sendo milhares de toneladas que precisavam ser isoladas.
O medo também se espalhou
Radiação possui uma característica que alimenta facilmente o medo: ela não pode ser percebida diretamente pelos sentidos humanos.
Não possui uma aparência que permita identificar uma área segura.
Não possui cheiro.
Uma pessoa pode estar perto de uma fonte perigosa sem perceber absolutamente nada.
Durante o acidente, essa invisibilidade transformou a informação em parte essencial da emergência.
A Agência Internacional de Energia Atômica registra que o episódio teve um impacto psicológico significativo e ajudou a demonstrar a importância da comunicação pública em acidentes radiológicos.
O medo não ficou restrito às pessoas diretamente contaminadas.
Goiânia e Goiás passaram a carregar o estigma associado ao Césio.
O acidente deixou de ser apenas um problema físico.
Também se tornou um problema social.

Para onde foi todo o material?
Era necessário encontrar algum lugar seguro para armazenar os rejeitos produzidos durante a descontaminação.
O local escolhido ficava em Abadia de Goiás, então ainda distrito próximo à capital.
A decisão provocou protestos e medo entre moradores.
Inicialmente foi construído um depósito provisório.
Posteriormente, uma instalação definitiva foi inaugurada em 1997.
Hoje, o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, ligado à CNEN, mantém o controle institucional do local e realiza o monitoramento ambiental.
Os depósitos foram projetados para manter o material isolado durante o longo processo de decaimento do Césio-137.
A meia-vida do Césio-137 é de aproximadamente 30 anos.
Isso significa que, a cada período dessa duração, sua atividade radioativa cai aproximadamente pela metade.
Não significa que desapareça depois de 30 anos.
É um processo que leva várias meias-vidas.
Goiânia ainda está contaminada?
Essa pergunta voltou a circular nas redes sociais recentemente.
Em setembro de 2026, a CNEN publicou uma nota especificamente para responder a conteúdos sugerindo que antigas áreas afetadas ainda representariam perigo para a população.
Segundo a CNEN, as áreas remediadas avaliadas não oferecem risco radiológico à população. Os depósitos de Abadia de Goiás continuam sob monitoramento. Essa conclusão se refere aos locais avaliados e não significa que os rejeitos tenham desaparecido: eles seguem armazenados e controlados.
Isso não apaga o acidente.
Mas existe uma diferença fundamental entre preservar sua memória e afirmar que Goiânia permanece vivendo uma emergência radiológica quatro décadas depois.
O que aconteceu com as vítimas depois?
O fim da operação de emergência não significou o fim da história.
Era necessário acompanhar pessoas que haviam recebido doses significativas de radiação e entender possíveis consequências de longo prazo.
Em 1988 foi criada a Fundação Leide das Neves Ferreira, responsável pelo acompanhamento das vítimas.
Hoje essa função é mantida pelo Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves, o CARA, ligado à Secretaria de Saúde de Goiás.
O centro mantém acompanhamento médico, preserva documentação histórica e desenvolve atividades relacionadas aos efeitos da exposição à radiação.
Décadas depois, o nome da menina de seis anos permanece associado não apenas à tragédia, mas também à estrutura responsável por acompanhar aqueles que sobreviveram a ela.
O filme que registrou a história poucos anos depois
A tragédia também ganhou uma das produções mais conhecidas do cinema goiano.
Em 1990, Roberto Pires escreveu e dirigiu Césio 137 — O Pesadelo de Goiânia.
O longa reconstrói o caminho da fonte desde sua retirada do prédio abandonado até a descoberta da contaminação.
Um detalhe torna a obra especialmente interessante como registro histórico: o roteiro foi desenvolvido com base em depoimentos de pessoas envolvidas no acidente.
A versão restaurada do filme também já integrou iniciativas do Arquivo Nacional.
Para ficha técnica, elenco e informações sobre o longa, há uma página dedicada a Césio 137 — O Pesadelo de Goiânia no TMDb. Esse endereço é do filme de 1990, não da minissérie da Netflix.
O filme é uma dramatização e não substitui documentação técnica sobre o acidente.
Mas funciona como uma maneira diferente de compreender a dimensão humana da história.
A minissérie da Netflix
Em 2026, a Netflix lançou Emergência Radioativa, uma minissérie brasileira de cinco episódios inspirada no acidente. A produção dramatiza os acontecimentos; para datas, números e contexto técnico, consulte as fontes documentais reunidas aqui, não a ficção como registro histórico. Veja a página da série no TMDb ou a página oficial da Netflix.
O erro não foi o Césio existir
Talvez uma das maiores lições de Goiânia seja também uma das mais simples.
O Césio-137 não estava originalmente naquela máquina por negligência.
Ele possuía uma finalidade médica.
Fontes radioativas são utilizadas em medicina, indústria, pesquisa e várias outras áreas de forma controlada.
O problema apareceu quando aquela fonte deixou de ser controlada durante todo o seu ciclo de vida.
A Agência Internacional de Energia Atômica aponta Goiânia como um marco internacional para o fortalecimento das regras de segurança de fontes radioativas.
Depois do acidente, a necessidade de saber onde uma fonte está desde sua fabricação até seu descarte definitivo ganhou ainda mais importância internacional.
A lógica é simples:
Material perigoso não deixa de ser perigoso quando deixa de ser útil.
Uma máquina pode estar abandonada.
Uma clínica pode fechar.
Um equipamento pode virar sucata.
A fonte radioativa continua lá.
Uma tragédia feita de pequenas decisões
O acidente de Goiânia parece inacreditável quando contado de trás para frente.
Uma fonte radioativa extremamente perigosa ficou em um prédio abandonado.
Duas pessoas conseguiram retirá-la.
A peça foi desmontada.
Foi vendida como sucata.
O material dentro dela chamou atenção porque brilhava.
Fragmentos foram levados para casas.
Pessoas adoeceram sem saber por quê.
E durante mais de duas semanas ninguém percebeu que uma fonte altamente radioativa estava circulando por uma cidade.
Nenhuma dessas etapas isoladamente explica toda a tragédia.
Foi o acúmulo delas.
Grandes acidentes nem sempre começam com uma grande falha. Às vezes, começam quando várias barreiras pequenas deixam de existir uma depois da outra.
Goiânia aprendeu isso de uma das maneiras mais difíceis possíveis.
O que ficou depois do acidente
O Césio-137 deixou marcas que ultrapassam a contaminação física.
Deixou vítimas acompanhadas até hoje.
Deixou toneladas de rejeitos armazenados e monitorados.
Mudou a maneira como fontes radioativas são encaradas.
Produziu pesquisas científicas e conhecimento médico utilizado posteriormente em outras emergências.
Também deixou uma responsabilidade permanente: não transformar memória em mito.
A história já é extraordinária sem precisar ser exagerada.
Não houve uma explosão nuclear.
Goiânia não permanece contaminada de forma perigosa atualmente.
O brilho azul não transformou pessoas em algo misterioso.
O que houve foi uma sequência documentada de falhas no controle de uma fonte radioativa, seguida por uma emergência gigantesca que afetou milhares de vidas direta ou indiretamente.
Quase quatro décadas depois, talvez a melhor maneira de respeitar quem viveu aquilo seja contar exatamente o que aconteceu.
Porque a realidade do Césio-137 em Goiânia já é assustadora o suficiente.
Fontes
- Secretaria de Saúde de Goiás — História do Césio-137 em Goiânia
- Secretaria de Saúde de Goiás — Césio-137 Goiânia
- Secretaria de Saúde de Goiás — A percepção dos envolvidos
- Secretaria de Saúde de Goiás — Assistência inicial aos radioacidentados
- Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves
- CNEN — Perguntas frequentes sobre o acidente e os depósitos de rejeitos
- CNEN — monitoramento atual das áreas relacionadas ao acidente
- Agência Internacional de Energia Atômica — The Radiological Accident in Goiânia
- IAEA — Goiânia's Legacy Two Decades On
- Arquivo Nacional — Césio 137: O Pesadelo de Goiânia
- TMDb — Césio 137: O Pesadelo de Goiânia
- TMDb — Emergência Radioativa (série)
- Netflix — Emergência Radioativa




